Venezuelanos nas ruas contra o ataque imperialista dos Estados Unidos conduzido por Trump – Foto: reprodução/PSUV Simón Rodríguez
Por Luiz Arnaldo Campos
Foi uma operação cuidadosamente coreografada em três tempos: o sequestro de Maduro, a coletiva de Trump e a imagem do presidente da Venezuela chegando algemado ao cárcere. Ao mesmo tempo uma demonstração de poder bélico, apresentação prática da nova “pax americana” e humilhação do líder adversário. Algo assim como o cortejo triunfal de Júlio Cesar, entrando em Roma trazendo aprisionado, o chefe gaulês Vercingetórix. Tão eficiente que chegou a nublar o olhar de vários comentaristas, que tomaram a bravata de Trump como verdade indiscutível passando a discutir como se implantaria na Venezuela, o protetorado norte-americano.
Mas o jogo não terminou. Pouco tempo depois da coletiva do mandatário norte-americano, a vice-presidente venezuelana, Delci Rodriguez, reunia o Conselho de Estado da República Bolivariana e assumia como presidente temporária, demonstrando estar no comando da situação. Solenemente declarou que a Venezuela não será colônia de ninguém. As ruas se mantiveram calmas, registrando-se manifestações pró-governo, embora não tão gigantescas como outrora e não ocorreu nenhum fracionamento público do dispositivo governamental.
Ao anunciar que governaria a Venezuela por um período de transição, Trump fez mais uma das suas bravatas, como quando anunciou a expulsão dos palestinos e a transformação de Gaza num resort internacional. Faz parte do show. A ação criminosa não tinha a pretensão de resolver de vez o imbróglio venezuelano mas sim dar mais um passo na estratégia de solapar, quebrar a credibilidade, incentivar dissensões e desmoralizar o governo chavista. Neste sentido foi bem sucedida, embora, não garanta, por si só, a vitória final.
Na verdade, a última palavra será dada pelo povo venezuelano, que tem demonstrado uma capacidade enorme de resistência, suportando não só bloqueios de ativos, inclusive ouro em bancos europeus e estadounidenses, como o confisco de propriedades no exterior Para continuar resistindo os venezuelanos precisarão romper o isolamento internacional, aproveitando o rechaço da maioria dos países à pirataria americana e contar com um apoio mais efetivo dos governos progressistas e dos movimentos sociais de todo mundo, em particular da América Latina.
Os acontecimentos de sábado foram também uma declaração pública de intenções. O imperialismo americano veio ao palco dizer em alto e bom som que lutará até o fim para manter sua hegemonia sobre o planeta. E mais, que nesta disputa seus inimigos são China e Rússia, particularmente, o primeiro. Não por acaso o primeiro alvo de seu acionar bélico no continente é a Venezuela. Não só pelo petróleo, mas também por ser o maior aliado destes dois países, na América do Sul. Isto foi dito, primeiro, pelo papel- o documento de Estratégia de Segurança Nacional, que relançou a doutrina Monroe – a América para os americanos, do norte, bem entendido- e, agora, pelas armas.
Ao recorrer à violência e a chantagem (utilizada anteriormente para ameaçar o Panamá, exigindo a retirada de empresas com capital chinês dos negócios do Canal inter-oceânico) Trump não dá somente uma demonstração de força, exibe uma fraqueza também. O cada vez mais frequente recurso a chantagem explicita e a ação militar demonstra que as brechas na rede de dominação imperialista vão se alargando. A utilização da a coerção, muito mais do que a persuasão, para afirmar uma hegemonia é uma prova concreta de fraqueza política e é exatamente isto que o episódio venezuelano demonstra. Aos olhos do mundo a capacidade de Washington de agregar aliados é cada vez menor e sua supremacia é crescentemente desafiada por articulações multilaterais ou diretamente pela China.
Já há muitos anos a China se transformou na “fábrica do mundo”; através da Rota da Seda, possui uma rede de comércio com mais de 150 países, sem tocar em portos americanos; é o maior produtor de lítio e de placas solares do mundo; está no topo da cadeia de comercialização dos semi-condutores e ao retirar da miséria 200 milhões de chineses ampliou de tal forma seu mercado interno, que se tornou praticamente invulnerável a boicotes e sanções. Além disso a China é a maior parceira comercial da Ásia, África e América Latina e vem de forma discreta, porém ativa- via Brics- incentivando o abandono do dólar como moeda padrão do mundo.
No quadro atual, aparentemente, de forma pacífica, não existem mecanismos capazes de deter o ocaso dos Estados Unidos da América, mas é aí que reside a questão. O Império Romano, em seu período de decadência, vivenciou o declínio de sua capacidade política, econômica e militar, já o império americano, embora sofra de uma acentuada crise política e econômica tem conseguido manter intacto seu aparato militar, até hoje o mais poderoso do mundo. E demonstra cada vez mais disposição para utilizá-lo, tornando o mundo um lugar cada vez mais perigoso.
De toda parte aparecem sinais apontando o nascimento de uma nova era. No entanto vai ser necessário um grande esforço por parte dos povos do mundo, no momento atual, particularmente da América Latina, para que a mãe e a criança sobrevivam às dores do parto.
*Luiz Arnaldo Campos – Militante do PSOL
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