17 de abril de 1996 foi um dia que não terminou. Até hoje, ouvem-se os gritos e a fuzilaria medonha. Na Curva do S, corpos empilhados. Passados 30 anos, o Brasil segue matando um sem a cada 10 dias. (Foto: João Roberto Ripper/Acervo João Roberto Ripper/Fundação Oswaldo Cruz)
Por Aldenor Junior
Aos mártires de Eldorado do Carajás
Oziel, 17 anos, não tinha como imaginar que em poucas horas seria morto a golpes de foice.
Ele não é “o líder”. Aqui, todos somos 3.000 líderes!
A terra é mãe. Dela tiramos o sustento. Ela é cama, aconchego. Será nossa mortalha, terá sonhado na noite anterior com coisas ruins, presságios inquietantes, péssimos pressentimentos?
Naquele dia, 17 de abril de 1996, bem longe dali, na capital, uma ordem – imprudente e cruel – era proferida: desocupem, desocupem de qualquer jeito!
Um Governador, com uma ira incontrolável, bufa sobre sua mesa imperial. A seu lado, secretário de segurança, comandante da PM e assessores variados. Ninguém, mas ninguém mesmo, teve a ousadia de questionar a insensatez? Aquilo seria (e foi) um banho de sangue.
Os sem-terra não arredariam pé. A caminhada já havia iniciado e nada a deteria.
Nada? Como poderiam supor que enquanto se organizavam para seguir sua caravana pela desapropriação da improdutiva Fazenda Macaxeira, naquele mesmo momento, a ordem mortal já havia sido dada: desocupem, desocupem de qualquer jeito!
Cercados pelos dois lados da PA-150, numa arapuca fatal, o que fazer se os PMs já chegaram atirando?
***
Araguaia, Araguaia, és uma Via Ápia ladeada por Castanheiras seculares e por mártires numa fila sem fim?
O barulho do helicóptero militar era ensurdecedor. A soldadesca antevia que havia muito o que comemorar.
1974, ano de sangue e pavor. Após três campanhas, o Exército brasileiro estava exultante.
A bordo, a cabeça de Oswaldão foi trazida em um saco. O corpo do gigante guerrilheiro fora degolado e deixado no meio da mata. Finalmente, as forças oficiais poderiam comemorar sua vitória contra menos de 70 guerrilheiros mal-armados e maltrapilhos.
Não haveria sobreviventes, nem prisioneiros, nem sepulturas para repouso daqueles corpos jovens e insubmissos.
Matem a todos! Matem a todos! teriam gritado os comandantes naquele combate assimétrico e banhado em sangue e sadismo.
***
As balas zumbiam para todos os lados.
Logo, os manifestantes perceberam que não havia como enfrentar aquelas tropas que já chegaram exalando ódio e cuspindo fogo.
Quem pode, correu para mata. Alguns feridos agonizaram por ali mesmo.
Pelo menos 10 das 21 vítimas fatais foram mortas com tiros na nuca, à curta distância.
Corpos empilhados. Vidas descartáveis (era o que coronéis engalanados imaginavam, pois não haveria quem chorasse aqueles mortos).
Será?
***
Spartacus, naquela noite que antecedeu sua morte, sonhou com um campo de trigo. Havia luz se infiltrando por todos os cantos. O que aquilo poderia dizer, imaginou o líder da revolução de escravizados que abalava os alicerces de Roma?
Olhou sua espada com marcas de tantas vitórias. Chegara seu dia, tinha certeza.
Após a derrota e morte em combate do líder, o império impôs um castigo cruel aos sobreviventes: 6000 escravizados crucificados ao longo da Via Ápia. “Pro Gloria Romae”!
Oswaldão, o líder guerrilheiro, não pregara o olho. Não sabe se sonhou. Delirou, talvez. As matas do Araguaia estavam cobertas de neve. Estranho, mas seu corpo podia sentir um vento frio que transpassava seus ossos.
O dia estava nascendo e na primeira luz da manhã, aquele homem negro contou suas últimas munições.
Oziel despertou com a algaravia do acampamento. Era cedo ainda, mas o calor já abrasava o asfalto. Ele olhou em volta e viu o semblante tenso de seus companheiros. De repente, do nada, aquela estrofe lhe causou incômodo: “Se a gente morrer nessa luta, o seu sangue será a semente …” Melhor tirar aquilo da cabeça. A caminhada não pararia por nada. Até a vitória, pensou.
***
De 1995 a 2025, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), 1.149 trabalhadores rurais foram mortos no Brasil em conflitos pela posse da terra. Uma vida perdida a cada 10 dias.
Enfileirem essas 1.149 vidas na Via Ápia do Araguaia, cercada por Castanheiras seculares, em honra à nova Roma, de terno, gravata e pick-up ranger. Tragédia de um país que não ajustou suas contas com seu passado-presente.
***
Fade in.
Uma cerca aparece em primeiro plano. A câmera vai se aproximando até se fixar no sorriso de um menino. Ele tem olhos de um marrom intenso.
Suas mãos, livres, não carregam foices ou fuzis. Há um caderno de papel almaço. E um lápis já bastante usado.
A imagem se aproxima mais ainda até deslizar por sobre as primeiras linhas de um poema em construção…”Na Via Ápia do Araguaia, cercada por Castanheiras seculares, germinam rosas, sementeira da mais pura esperança no porvir…”.
*Aldenor Junior é jornalista.
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