A inesperada derrota de Viktor Órban, ícone da extrema-direita mundial e queridinho dos Bolsonaro no Brasil, mostra que neofascismo pode (e deve) ser neutralizado, custe o que custar. Foto: Attila Kisbenedek
Por Aldenor Junior
Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela.
Chico Buarque, Budapeste (Companhia das Letras, 2003)
Budapeste se iluminou para festejar o final de 16 anos de governo autocrático de Viktor Orbán. O ícone da extrema-direita mundial foi varrido nas urnas, finalmente. Quem diria, justamente ele que se apresentava como invencível, o modelo a ser propagado para todos os cantos. Mas, é verdade, a resposta das urnas não deixa margem a dúvidas: pelo voto popular, seu partido onipotente, o Fidesz, foi fragorosamente derrotado. E agora, o que acontecerá no país do centro da Europa que se transformara nos últimos anos em laboratório do que há de mais elaborado em termos de neofascismo no século XXI?
Órban caiu, mas não foi alvejado por um movimento político de esquerda. Sequer progressista ou de cunho democrático. Seu rival, aliás, até há pouco era membro de seu partido e, portanto, cúmplice voluntário das atrocidades cometidas contra a frágil democracia húngara. Péter Magyar, do partido Tisza, conquistou 138 das 199 cadeiras no parlamento, com 53% dos votos. Ele se apresenta como de direita, e de fato não tem como negar suas relações íntimas com o sistema que governa a Hungria há quase duas décadas.
Seu rompimento com Orbán é muito recente e só veio a público em 2024. Porém, foi em torno dele que se organizou um multifacetado campo de oposição, que apesar da grande diversidade teve em comum a vontade de acabar com um governo perverso, um câncer que corroeu a governança do país por dentro.
Péssima notícia para Donald Trump, justamente na semana em que o aloprado ocupante da Casa Branca teve de amargar uma derrota (ainda parcial, mas nem por isso menos vexatória) na guerra contra o Irã. Prevendo o desastre iminente, Trump enviou seu vice-presidente, J. D. Vance, para fazer boca-de-urna para Orbán, o que se mostrou inútil e só serviu para ampliar a dimensão da derrota.
O primo pobre dos trópicos
Jair Bolsonaro jamais escondeu sua admiração pelo ditador húngaro. Via nele um espelho, um mestre, um tutor. Depois da sova que Orbán recebeu neste domingo, 12, o presidiário Jair e sua prole devem estar refletindo sobre o que falhou naquilo que parecia ser um plano perfeito.
Em 2024, sentindo que as brasas da investigação da trama golpista começavam a crepitar sob seus pés, o ex-presidente protagonizou mais uma de suas pataquadas. Em sigilo – na verdade, temendo a decretação de sua prisão por Alexandre de Moraes -, Bolsonaro buscou refúgio nas dependências da Embaixada Húngara, em Brasília. Era 12 para 13 de fevereiro e a covardia do ex-capitão já se mostrava algo difícil de contornar. O país escolhido para essa quase fuga não foi fruto do acaso. A veneração por Orbán está na gênese do bolsonarismo. Agora, os aprendizes de feiticeiro precisarão recalcular a rota.
De tudo, fica uma lição: o fascismo – não importando as distintas máscaras que tente utilizar – nunca foi um fenômeno que dependesse de uma ou outra figura, por mais sinistra que fosse. Antes, porém, responde a determinações do sistema econômico-social dominante. Dito de outra forma, os fascismos jamais existiriam se não fossem funcionais ao desenvolvimento do modo de produção capitalista. Ponto, seguida.
É como nos lembra o filósofo e escritor Vladimir Saflate (A ameaça interna, psicanálise dos novos fascismos globais, Ubu, 2026): “Se de fato há uma dinâmica fascista global, que ocorre por todos os lados, isso não poderia ser compreendido como se estivéssemos diante de um corpo estranho a invadir nossos processos de modernização social. Antes, o fascismo deveria estar entre nós desde sempre, de alguma forma, como uma potencialidade pronta a assumir a totalidade de nossa vida social”.
De qualquer forma, acendeu-se uma luz (ainda tênue, mas cheia de vida) no longo túnel do avanço do supremacismo de extrema-direita. Que sobreviva às intempéries que estão por vir.
Como nos lembra Chico Buarque, o húngaro é a única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita. Que seja em húngaro, pois, que se recite o mais belo canto em favor da liberdade.
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