Cabanagem, 191 anos: Ecos para o futuro – Por Aldenor Junior

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Cabanagem, 191 anos: Ecos para o futuro – Por Aldenor Junior

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Tela: Benedicto Mello (1925-2004)

Se pudessem contar sua história, com suas próprias vozes, o que nos diriam esses homens e mulheres que escreveram com sangue a maior revolução popular da história brasileira?

Ao professor e jornalista Manuel Dutra (in memoriam)

Por Aldenor Junior

A cidade do Pará, Belém, aldeia velha dos Tupinambá, era pura sedição no alvorecer do 7 de janeiro de 1835. Daquele dia em diante, a vida de seus habitantes seria marcada para sempre pelo signo da revolução.

Muito já se falou sobre aqueles homens e aquelas mulheres. Eram malvados, facínoras, bestas humanas sedentas por sangue. Foi essa imagem – obviamente marcada pelo ódio das elites vencedoras – que ficou registrada nos documentos oficiais.

A versão dos vencidos, porém, foi soterrada por quase dois séculos de violências continuadas. A humanidade dessas pessoas submergiu num abismo de silêncio. O que terá restado de suas paixões e, sobretudo, de seu destemor e de sua entrega à causa?

Paradoxalmente, não fosse o apuro das autoridades encarregadas de caçá-las, encarcerá-las e, na maior parte das vezes, assassiná-las da forma mais brutal possível, não teríamos sequer seus nomes ou suas alcunhas e nem um breve e enviesado resumo de suas trajetórias. Trata-se dos Autos da Cabanagem, vultosa coleção de documentos preservados pelo Arquivo Público do Pará, da qual consta a Relação Nominal dos Rebeldes Presos.

Esse tesouro historiográfico permaneceu praticamente desconhecido até ser pesquisado de forma exaustiva pelo paraense Lúcio Flávio Pinto, que por anos se debruçou sobre ele, escutando com paciência e empatia as vidas despedaçadas que dali emanavam. O resultado foi Cabanagem, o massacre (edição do autor, 2020), obra que de tão extraordinária deveria ser leitura obrigatória no sistema de ensino brasileiro. É dela que serão selecionados alguns poucos casos dentre as anotações referentes aos 1953 prisioneiros cabanos, finalmente revelados como protagonistas e não como meras estatísticas macabras.

Ao trazer à luz essas histórias, um tributo aos que deram a vida para libertar nossa terra do jugo colonial, ou imperial, que nenhuma diferença havia trazido, também se rende homenagem à coragem altiva e resiliente de Lúcio Flávio, nosso maior e mais combativo jornalista.

Painel em homenagem à Cabanagem, a obra do pintor Benedicto Mello (1925-2004) decora o plenário Newton Miranda, da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (ALEPA). A tela representa a “Belém Cabana”, descrita pelo pintor como “a cidade que pegou fogo”.

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Uma legião de mártires

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Esses cabanos não falam por si. Como se verá a seguir, sabe-se o quem eram e o que teriam feito (do que eram acusados) pelo relato das autoridades constituídas pelo Império para exterminar, a ferro e fogo, movimento que incendiou a capital e transbordou por rios e igarapés, erguendo a bandeira encarnada da rebelião até os mais distantes confins daquilo que hoje conhecemos como Amazônia.

Que se apresentem, agora, com letras de evidente ódio de classe e de raça, alguns cabanos (para que se filtre, mas entrelinhas, sua história verdadeira):

Manoel Domingos do Nascimento (filho de Angela Maria). Paraense, mulato, 21 anos, sem ofício. Junto com outros, matou, na fazenda Santa Maria, o capitão João Pereira Marques Filho, um escravo dele e mais três forros. Preso em Marajó. Remetido para bordo da corveta Defensora em outubro de 1838. Foi para o Hospital de S. José em fevereiro de 1839, onde morreu, em março.

Manoel Joaquim Pereira Feio. Paraense, 51 anos, mameluco, livre. Tenente-coronel chefe dos cabanos do Moju feito por Eduardo Angelim. Mandou fuzilar mais de 80 cidadãos em Igarapé-Miri, entrando neste número o comandante daquele ponto, alferes Pena. Preso em maio de 1836, mantido no porão da corveta Defensora.

Manoel José de Medeiros (por antonomásia Chibé). Português (ilha de São Miguel), branco, 36 anos, casado, carpinteiro. Assaltou a vila de Monte Alegre contra a força da legalidade, na madrugada de 28 de fevereiro de 1836, onde fez um vivo fogo e feriu alguns legais. Foi um dos oferecidos para conduzir para Ecuipiranga o capitão-mor Nicolau da Gama Lobo, que seria morto junto com outras vítimas. Antes de embarcarem, assassinou a facadas João Antônio de Lemos e andou aliciando gente para o seu grupo. Preso em Gurupá, transferido para Santarém e remetido para bordo da corveta Defensora em junho de 1837. Passou a ser empregado no Arsenal de Marinha a partir de outubro de 1839.

Manoel Pereira das Chagas. Paraense (vila da Vigia), índio, 30 anos, casado, lavrador. Rebelde que participou do ataque a Belém, onde roubou e se retirou para a freguesia de São Caetano com fazendas secas e molhadas. Foi sempre contra a legalidade e os portugueses. Andava com uma pistola e terçado, prometendo matar todos os homens legais, não se querendo reunir às forças do governo. Quis dar um tiro num português, falando sempre muito mal do imperador. Preso em São Caetano, passou para o Arsenal de Marinha por portaria em outubro de 1838.

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Manoel Raimundo. Paraense, mulato, 18 anos, escravo de Maria do Carmo. Remetido para bordo da corveta Defensora em 30 de dezembro de 1836. Acusado de haver sido cadete e alferes de guerrilha cabana e ter ido à casa do inspetor da Fazenda, “onde fez os maiores insultos, deitando-se até com as mulatas escravas, diante de sua própria senhora, e haver roubado a casa de João da Ponte e Souza”. O presidente ordenou que deveria ser surrado logo que chegasse a bordo, o que aconteceu em dezembro de 1836. Foi solto três anos depois, em de dezembro de 1839.

Manoel Raimundo Ferreira (“Borboleta Azul”). Paraense, branco, 60 anos, juiz municipal. Cabano influente, que, sendo juiz municipal na vila de Santarém, “seduziu os povos para a revolta contra o governo legítimo”. Mandava roubar as canoas do comércio que desciam do sertão para a capital, tomando-as por sua ordem, passando conhecimento para receberem sem importe do Termo Público. Remetido para a Defensora em dezembro de 1836, morrendo a bordo em janeiro de 1837.

Marcelo Inocêncio da Silva (“Onça”). Paraense, mameluco, 24 anos, carpinteiro. Foi assassino do ex-presidente Lobo “e fez-se célebre na revolução pelas maldades que praticou, e são notórias”. Preso em 14 de setembro de 1836, em Joanes. Remetido para bordo em setembro de 1836, onde morreu no mês seguinte.

Martinho Braz. Paraense, índio, 50 anos, carpinteiro. Comandante tanto de Icuipiranga quanto de Pinhel, dirigiu proclamações aos índios contra a legalidade e assassinou alguns soldados em Aveiro, em companhia de seu filho, José de Nápoles. Preso pelo comandante do Amazonas. Remetido para bordo da corveta Defensora em outubro de 1838. Morreu no hospital de S. José em março de 1839.

E essa listagem poderia seguir muito mais, porque a multidão de cabanos encarcerados, mortos ou escravizados é longuíssima.

O que de fato importa não é apenas ouvir seus gritos e suas dores, mas recolher o que talvez seja seu mais importante legado: ontem, como hoje, o que nos define como seres humanos é capacidade manter a espinha ereta diante da opressão. O resto, sabemos, já é e será apenas história.

Aldenor Junior é jornalista

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