A briga pública entre Michelli e seus enteados ganhou as manchetes e trouxe como desfecho o fortalecimento da ex-primeira-dama. O que está em jogo é a disputa pelo legado do bolsonarismo das eleições do próximo ano – Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Por Aldenor Junior
Casa de ferreiro, espeto de pau. Na família mais ilustre na extrema-direita brasileira instalou-se, há poucos dias da prisão em regime fechado de seu patriarca, o Jair Messias, o maior barraco político, antecipando turbulências entre a ex-primeira-dama e seus enteados. Ali, definitivamente, apesar da retórica que finge acento religioso e reverencial, ninguém ama (nem respeita) ninguém.
Tudo começou com um posicionamento de Michelli Bolsonaro, em viagem ao Ceará no final de semana. Ela não teve dúvidas ao dinamitar, publicamente, o acordo costurado pela seção bolsonarista local com o ex arquirival Ciro Gomes, tudo em nome de impor uma (talvez) improvável derrota eleitoral ao petismo que governa o estado há quase 12 anos.
O que se viu em seguida foi uma gigantesca trapalhada. Flávio, Eduardo e Carlos abriram fogo verbal contra a madrasta, alegando que ela agira sem considerar as determinações do líder encarcerado. A intensidade do ataque pareceu desproporcional, mas tinha objetivo certo: abater no nascedouro o voo solo de Michelli e afirmar o poder masculino dentro da até então mais poderosa família no espectro da extrema-direita nativa.
Em poucas horas a manobra soçobrava miseravelmente. Michelli aproveitou a oportunidade para crescer diante dos pretensos herdeiros do espólio de Bolsonaro. Reagiu com firmeza, “como esposa” e como liderança que tenta preservar a pureza da ideologia que diz defender. Para ela, uma aliança com alguém que atacou de forma reiterada o marido era inconcebível. Sem mostrar fraqueza, dobrou a aposta e acabou vencendo.
Após encontro com o pai na carceragem da Polícia Federal (PF) em Brasília, Flávio modulou o discurso, “pediu desculpas” à madrasta e pregou a unidade familiar. O estrago, porém, já estava feito. É a ex-primeira-dama que emerge maior do conflito, demarcando um território simbólico no momento exato em que o clã se vê sob ataque especulativo de seus congêneres de extrema-direita, muitos sinceramente convencidos que é imprescindível manter os votos de Bolsonaro mas numa equação que afaste a sombra de um ou uma Bolsonaro na chapa presidencial do próximo ano. Não será nada fácil resolver esse rolo sem provocar mais traumas e rusgas difíceis de resolver a menos de um ano do pleito presidencial.
Para selar o vexame, o PL anunciou nesta terça-feira, 2, o rompimento do acordo com Ciro Gomes, um trânsfuga cujo capital eleitoral vem sendo dilapidado a cada eleição. 1 X 0 para Michelli e sua retórica algo incendiária.
Deve-se aguardar para breve cenas mais tórridas dessa guerra familiar que dá seus primeiros e trôpegos passos.
Aldenor Junior é jornalista
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