A NOVA DOUTRINA MONROE: Uma Análise Crítica da Estratégia de Segurança Nacional (NSS) de Trump e suas Implicações para a América Latina

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A NOVA DOUTRINA MONROE: Uma Análise Crítica da Estratégia de Segurança Nacional (NSS) de Trump e suas Implicações para a América Latina

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Presidente dos EUA, Donald Trump – Foto: divulgação/Casa Branca

Por Paulinho Rodrigues

Donald Trump, em sua estratégia de segurança nacional (NSS), formalizou uma nova versão da Doutrina Monroe, atualizada para o século XXI. Este documento, com 33 páginas, não apenas delineia a política externa dos Estados Unidos para 2026, mas revela um projeto claro de reafirmar o domínio hemisférico sobre a América Latina, em um contexto de intensa competição geopolítica, especialmente com a China.

A Doutrina Monroe Original: Fundação do Imperialismo Continental

Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a doutrina original estabelecia o princípio de “América para os Americanos”. Em sua gênese, buscava impedir a recolonização europeia das nações recém-independentes. No entanto, seu significado amolgando ao longo do século XIX e XX, transformando-se na justificativa ideológica para mais de 200 intervenções militares, políticas e econômicas dos EUA no continente. Ela consolidou uma hegemonia que definiu papéis claros: as forças armadas latino-americanas cuidariam do “inimigo interno” (movimentos populares, sindicatos, esquerda), enquanto os EUA patrulhariam o continente e garantiriam a “segurança externa”. Essa lógica moldou golpes de Estado, ditaduras e uma dependência estrutural que persiste até hoje, evidente no treinamento e na doutrinação de militares latino-americanos nos EUA e na venda de armamentos.

A Estratégia de Segurança Nacional de Trump: Monroe 2.0

O documento NSS de Trump é um marco por sua clareza agressiva e foco explícito na América Latina. Dividido em quatro partes (introdução, objetivos, meios e estratégia/tática), cerca de dois terços de seu conteúdo são dedicados ao “hemisfério ocidental”. Trump declara o fim da “negligência” dos anos anteriores e a intenção de “retomar a grandeza, o poder e a influência” dos EUA no mundo, começando por seu quintal estratégico.

Os pilares desta nova doutrina são:

1. Conter a China e Reafirmar o Domínio Econômico: O documento identifica a China como principal competidor, acusando-a de práticas comerciais “desleais”, espionagem industrial e uso de financiamento estatal para conquistar mercados na América Latina. O objetivo explícito é expulsar a influência chinesa, impedindo acordos, investimentos em infraestrutura (como portos e ferrovias) e o acesso a recursos estratégicos. A mensagem é que o “livre mercado” deve ser regido pelos padrões, *royalties e tecnologia norte-americanos*.

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2. Controlar Recursos Naturais Estratégicos: A NSS afirma que o hemisfério possui “muitos recursos” e que os EUA devem garantir acesso a eles através de “intercâmbios”. Isso traduz uma política de apropriação de commodities críticas para o século XXI: petróleo venezuelano, lítio boliviano, terras raras brasileiras e água doce.

3. Militarização e “Guerra às Drogas” como Pretexto: Trump declara “guerra aos cartéis terroristas na América Latina”, uma terminologia perigosa que classifica o crime organizado como ameaça transnacional, abrindo a justificativa legal para intervenções militares diretas, sob o guarda-chuva do combate ao narcoterrorismo.

4. Parceria com a Extrema-Direita Global: O documento elogia a “emergência de partidos patrióticos” na Europa (como a Alternativa para a Alemanha e a Frente Nacional na França), sinalizando uma aliança ideológica com forças xenófobas e nacionalistas, posicionando os EUA como polo difusor da extrema-direita mundial.

5. Abandono da Ordem Global Multilateral: Trump afirma que os EUA não vão mais “sustentar a ordem global” sozinhos, exigindo que aliados, especialmente europeus, aumentem seus orçamentos militares para até 5% do PIB. Isso promove uma corrida armamentista e um cenário de tensão pré-bélica.

Comparação e Implicações: Da Teoria à Ação

Enquanto a Doutrina Monroe original usava uma retórica protetora para esconder o imperialismo, a versão de Trump é explícita e belicosa. A “paz” que ele proclama é a da submissão. O “corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma coroação renovada da hegemonia através da força bruta, do protecionismo seletivo e da desestabilização política.

A crise na Venezuela é o laboratório desta nova doutrina. A movimentação da frota naval para o Caribe, o assassinato extrajudicial de suspeitos no mar (um claro crime de guerra) e a pressão aberta por uma mudança de regime demonstram o desprezo pela soberania nacional. O episódio envolvendo o empresário Joesley Batista, enviado como emissário informal para pressionar Maduro a renunciar—uma tática reminiscente do uso do Barão de Mauá no século XIX com o Uruguai—expõe a conivência perigosa do governo brasileiro, que, ao invés de defender a autodeterminação, abriu espaço para essa ingerência.

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Conclusão: A Encruzilhada Latino-Americana

A nova NSS de Trump é uma declaração de guerra ao projeto de integração soberana da América Latina. Ela exige uma resposta unificada e corajosa. Enquanto governos como os da Venezuela, México e Colômbia (em alguns aspectos) resistem à submissão, outros, como o do Brasil, adotam uma postura ambígua e perigosamente colaboracionista.

A oferta de parceria com os EUA no “combate ao crime organizado” não é cooperação; é a abertura da porta para a CIA, o FBI e as forças especiais norte-americanas atuarem em solo nacional, minando a soberania e replicando o modelo fracassado e violento do Plano Colômbia. Da mesma forma, a disposição de negociar terras raras e outros recursos estratégicos com os EUA, em detrimento de parcerias sul-sul, é uma rendição ao novo colonialismo.

Diante desse cenário, é papel da esquerda afirmar sem hesitação: a nova Doutrina Monroe é uma ameaça direta à soberania, aos direitos sociais e ao futuro dos povos latino-americanos. Denunciá-la não é antiamericanismo; é defesa do direito elementar de que nossos territórios, recursos e decisões políticas não sejam subordinados aos lucros de fundos de investimento sediados a milhares de quilômetros.

O caminho alternativo passa por integração regional soberana, auditoria de contratos estratégicos, fortalecimento dos movimentos sociais e articulação internacional de solidariedade.

Em outras palavras:

o “Corolário Trump” é um aviso — mas também um chamado. Cabe aos povos da América Latina impedir que o século XXI se transforme na repetição ampliada de um século XIX armado de drones, algoritmos e fundos especulativos.

*Paulinho Rodrigues é ativista dos direitos humanos, coordenador do Movimento Cabano em Apoio as Lutas pela Autodeterminação dos Povos – MOCAP

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